top of page

Conferências Ciêntificas

2025

II CONGRESSO INTERNACIONAL DE HUMANIDADES UAB. DESAFIOS DA TRANSFORMAÇÃO DIGITAL

Transformação Digital e Memória Cultural: Da Subjetividade à Lógica Data-Centric

A memória, entendida como um conceito subjetivo e indissociável da interpretação humana, mantém uma relação intrínseca com a materialidade das fontes primárias, constituindo a base sobre a qual a teoria arquivística tradicional observa e analisa a memória histórica e cultural. Contudo, o desenvolvimento linear e acelerado da transformação digital, que permeia múltiplos domínios – incluindo o campo da preservação da memória – aponta para uma profunda reconfiguração deste conceito. A digitalização e a utilização de tecnologias avançadas de processamento e análise de dados conduzem uma transição da memória para uma lógica idealizada e fortemente influenciada pelo digital, suscitando novas questões em torno da autenticidade e da fidelidade da memória conservada neste ambiente tecnológico.

A adoção de métodos de Inteligência Artificial (IA) para a digitalização e automação de processos analíticos no contexto arquivístico e de preservação memorialística, favorece uma interpretação da memória menos centrada na experiência humana e mais orientada para a manipulação de dados. Tal transição parece assinalar uma deslocação da memória, de uma conceptualização essencialmente subjetiva, para uma observação “data-centric,” visto que os arquivos digitais contemporâneos – refletindo o avanço real da transformação digital – já se encontram integrados em redes complexas de dados. Neste contexto, a memória preservada em arquivos digitais rigorosamente estruturados poderá estar a atingir um estágio de “data-centric memory,” onde o valor de cada registo é avaliado e centralizado, em grande medida, pelo seu potencial de análise e reconfiguração mediante os algoritmos que organizam e interpretam o seu conteúdo.

A transição para uma memória orientada por dados levanta questões epistemológicas e éticas quanto à natureza e integridade da memória preservada em ambientes digitais, exigindo uma revisão crítica dos fundamentos da teoria arquivística tradicional e uma reavaliação do papel do ser humano enquanto guardião da memória cultural num mundo digitalmente interligado. Impõe-se, então, a interrogação: até que ponto estas novas dinâmicas de acesso e manipulação de dados nos aproximam, ou, inversamente, nos afastam de uma preservação autêntica e eticamente responsável da memória histórica? Torna-se imperativo, neste cenário, a colaboração entre especialistas em Humanidades Digitais, Arquivistas com competências em IA e demais profissionais, para moldar um futuro conceptual da memória.


Bibliografia:

«Archives and AI: An Overview of Current Debates and Future Perspectives». J. Comput. Cult. Herit. 15, n.o 1 (14 de dezembro de 2021): 4:1-4:15. https://doi.org/10.1145/3479010.

«Applying AI to digital archives: trust, collaboration and shared professional ethics». Digital Scholarship in the Humanities 38, n.o 2 (1 de junho de 2023): 571–85. https://doi.org/10.1093/llc/fqac073.

«Are Users of Digital Archives Ready for the AI Era? Obstacles to the Application of Computational Research Methods and New Opportunities». J. Comput. Cult. Herit. 16, n.o 4 (24 de janeiro de 2024): 87:1-87:16. https://doi.org/10.1145/3631125.

«AI-Powered Archives: Revolutionizing Information Access for the Future». Em 2023 IEEE International Conference on Big Data (BigData), 6298–6300, 2023. https://doi.org/10.1109/BigData59044.2023.10386963.

 

© 2025 por J. P. Oliveira. Orgulhosamente criado com Wix.com

bottom of page