Conferências Ciêntificas
2024
NOVOS CAMINHOS PARA A PRESERVAÇÃO E O ACESSO À INFORMAÇÃO - ARQUIVO FCT & ARQUIVO.PT, LISBOA, PORTUGAL
ABSTRACT:
Entre a Memória e o Esquecimento: Desafios na preservação digital de movimentos sociais
No contexto de uma crescente instabilidade política e social, assiste-se a um incremento significativo de sentimentos de revolta, protesto e contestação popular, espelhando o descontentamento generalizado da população. Paralelamente, a era contemporânea distingue-se por um fluxo incessante e acelerado de informação, potenciando a visibilidade e a amplificação destas dinâmicas sociais. Neste contexto, a observação em tempo real da emergência de múltiplos movimentos sociais suscita uma necessidade premente de atuação num sentido único: desenvolver o debate em torno das dificuldades da preservação da memória destes fenómenos coletivos, horizontais e revestidos por uma densa camada de “elasticidade social”, tal como Jen Hoeyer e Nora Almeida já aprofundaram na sua obra “The Social Movement Archive”[1]. A sua abordagem crítica posiciona os arquivos e os arquivistas como elementos centrais na interface entre a memória histórica e a sua representação contemporânea, desafiando as conceções tradicionais da arquivística. Num âmbito do desenvolvimento de um projeto de preservação digital, cujo objetivo primordial é arquivar e manter viva a memória de um movimento social, deparamo-nos com um paradoxo. A fluidez, que classifica a essência do movimento e assume uma relevância central na sua compreensão, tende a esbater-se. Este fenómeno ocorre à medida que os objetivos fundamentais do arquivo e da conservação da memória ganham predominância. Consequentemente, corre-se o risco de cristalizar o movimento num determinado momento temporal e espacial, comprometendo assim a representação da sua natureza evolutiva, contextual, fluída e dinâmica. Este desafio metodológico suscita questões fundamentais sobre a preservação não apenas dos factos históricos, mas também da vitalidade e do carácter transformador inerentes ao movimento, num formato digital que, pela sua natureza, tende à estaticidade. Assim, deverá um projeto de preservação digital rever a sua metodologia para captar a fluidez dos movimentos sociais? E quais fatores tornam complexa a preservação de movimentos sociais sem os reduzir à imobilidade de um arquivo digital estático? Amalia Sabiescu[2] e Sylvie Rollaso-Cass et al.[3] abordam esta problemática nos seus estudos, procurando compreender os processos, estratégias e metodologias teórico-práticas necessárias para preservar e arquivar movimentos de contestação e de resistência, reconhecendo os constrangimentos específicos que lhes são inerentes.
Num período de efervescência sociopolítica torna-se central definir uma linha clara de como atuar perante a necessidade real de preservar movimentos sociais tendo em conta a sua variabilidade, subjetividade e as suas múltiplas dinâmicas internas. Deste modo, esta linha de investigação revela-se crucial para desenvolver abordagens teórico-práticas que permitam capturar a dinâmica e a complexidade destes movimentos sociais, superando as limitações intrínsecas dos formatos digitais de arquivo.
[1] Jen Hoeyer e Nora Almeida, The Social Movement Archive, vol. 1 (Litwin Books, LLC, 2021), https://litwinbooks.com/books/6722/.
[2] Amalia G. Sabiescu, «Living Archives and The Social Transmission of Memory», Curator: The Museum Journal 63, n.o 4 (2020): 497–510, https://doi.org/10.1111/cura.12384.
[3] Sylvie Rollason-Cass e Scott Reed, «Living Movements, Living Archives: Selecting and Archiving Web Content During Times of Social Unrest», New Review of Information Networking 20, n.o 1–2 (3 de julho de 2015): 241–47, https://doi.org/10.1080/13614576.2015.1114839.